Memória ABRACE X

 

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Editorial

Os Anais do IV Congresso da ABRACE, entregues aos participantes do maior evento científico da área de artes cênicas no Brasil, em sua abertura, comprovam o admirável estado da pesquisa em Teatro e Dança no país. São, ao todo, 230 trabalhos que, reunidos no volume denominado “Os trabalhos e os dias” das artes cênicas – Memória ABRACE X, apresentam-se à comunicação e ao debate. Os dez Grupos de Trabalho da Associação, muito atuantes durante todo o biênio, foram o local de recepção e seleção das propostas para comunicações ou demonstrações práticas que estão na matriz dos textos aqui publicados. São também seu primeiro destino; constituem o lugar privilegiado onde pesquisas, concluídas ou em processo, encontram sua acolhida atenta e inteligente.

Entre pares selecionados, os autores participantes podem aproximar interesses, confrontar métodos e apreciar resulta-dos de suas investigações, durante as dez horas de trabalho que o IV Congresso destina ao desenvolvimento da Programaçãodas Sessões Internas dos Grupos de Trabalho: quatro encontros restritos, organizados pelos próprios grupos e destinados aos associados que submeteram resumos à aprovação dos coordenadores.

No horizonte do movimento reflexivo está o tema do IV Congresso de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas – “Os trabalhos e os dias” das artes cênicas: ensinar, fazer e pesquisar dança e teatro e suas relações. A alusão à obra de Hesíodo, contida no título apresentado à Associação durante a Reunião Científica de 2004, indica inspiração em determinados temas e em formas para seu desenvolvimento. Como lembrávamos na ocasião, Hesíodo, poeta aedo da “época arcaica”, inspirado nas Musas, cantou a genealogia divina em sua Teogonia, e também “o seu aqui e agora”, com necessidade do trabalho diário, em seu Os trabalhos e os dias. Cantor, “servo das musas” e “senhor das palavras”, Hesíodo remete à possibilidade de um “sentido” no qual a poesia, palavra cantada, é, ao mesmo tempo, visão de mundo, atuação, ensino, deleite e obra.

O tema proposto para o IV Congresso, em 2004, parecia anunciar uma rotina de trabalho que a própria ABRACE teria que implementar, durante quase todos os dias do último biênio: regularizar-se e remontar seu quadro de associados. Foram tarefas duras, necessárias para permitir a manutenção adequada da Associação e garantir a realização de uma de suas principais atividades, o Congresso de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas, cuja organização só pôde ter início em outubro de 2005.

Hoje, na abertura do IV Congresso, no mês de maio de 2006, o título parece sugerir também que a área de artes cênicas talvez tenha adquirido novos contornos ao longo dos oito anos de existência de ABRACE e que a Associação já não precisa mais reafirmar a necessidade de manter seu olhar prioritariamente voltado para si mesma. Deixamos para trás as prioridades necessárias às indagações dos Congressos anteriores – Quem somos?, Como pesquisamos?, Como e por que pesqui-samos artes cênicas?. E apontamos em direção a um presente extremamente produtivo, em que a vontade de saber impera no cotidiano do trabalho de criação e no dia-a-dia do pensamento.

A produção acadêmica que deságua no IV Congresso vem, predominantemente, da atividade de professores e alunos de Programas de Pós-Graduação em Teatro e Dança já consolidados como os da UDESC, da UFBA, da UNICAMP, da UNIRIO e da USP. Cursos de Artes de outras instituições e outros pesquisadores também se acercam do Congresso para nele encontrar o fórum que impulsiona a diversidade da pesquisa em artes cênicas. Durante três dias, 10, 11 e 12 de maio de 2006, na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, a UNIRIO, não só se reflete sobre o teatro e a dança que se cria no Brasil e em outras partes do mundo, mas também instalam-se debates sobre as experiências do fazer artístico em ambiente universitário, sem abrir mão do diálogo sobre as oportunidades de disseminação das linguagens artísticas na sociedade brasileira.

Terminado o Congresso, a Memória ABRACE X encontrará maior número de leitores, produzirá diferente leque de perguntas, alimentará o início de outro ciclo de investigações. A Diretoria da ABRACE, na gestão 2004-2006, Rio de Janeiro, UNIRIO, aposta neste desdobrar-se sempre promissor de novos tempos para a pesquisa na área de artes cênicas no Brasil.

Maria de Lourdes Rabetti (Beti Rabetti) e

Maria Helena Vicente Werneck

Rio de Janeiro, 2 de abril de 2006