voltar

GT ETNOCENOLOGIA

 

Considerações gerais e históricas (em 2008)

Há aproximadamente 200.000 anos, a partir de um só grupo que provavelmente deu origem a toda a humanidade, na região centro-sudeste do continente africano, por ondas sucessivas de migração, sobretudo via terrestre, os diversos agrupamentos humanos se formaram. Com eles, também se constituíram as diversas famílias lingüísticas e fenótipos, que foram considerados, durante muito tempo, característicos de raças distintas. Há mais ou menos 500 anos, com as grandes navegações, notadamente a partir da península ibérica, a humanidade se confrontaria com toda essa diversidade cultural e, aparentemente, racial. Mais recentemente, os estudos do genoma humano concluíram que, na verdade, só existe uma única raça humana.

Na esteira dessa história mais recente, principalmente a partir da Europa ocidental, surgiram os estudos das culturas então “exóticas” e, também, os estudos comparados das diversas culturas. Aí se construiu a etnologia e, após uma tentação etnocêntrica racista, já a partir do final do século XIX, constatando-se que as emoções são exprimidas de modo diferente pelos diversos grupos humanos conhecidos, buscou-se contestar o etnocentrismo e criou-se a etnociência. No final do século XX, tomando como modelo a etnomusicologia (que passou do estudo das formas musicais dos povos ágrafos a uma espécie de musicologia comparada de todos os povos, aproximando-se assim da etnoligüística), foi proposta a criação da etnocenologia. A iniciativa coube a um grupo de pesquisadores (Jean Duvignaud, Jean-Marie Pradier e André Marcel D’Ans) e de gestores da cultura (Chérif Khaznadar e Françoise Gründ), na França, com a participação de colegas de muitos outros países, entre os quais, o Brasil.

Essa nova etnociência, dedicada às artes do espetáculo e aos comportamentos e práticas espetaculares humanos organizados, em 1995, foi motivo de um primeiro colóquio internacional, na sede da UNESCO e na Maison des Cultures du Monde, em Paris, França. Após dois outros colóquios internacionais, realizados com periodicidade anual, um em Cuernavaca, Morelos, México, em 1996, e outro em Salvador, Bahia, Brasil, em 1997, a etnocenologia motivou publicações, especialmente no Brasil e na França, e seminários, também principalmente nesses dois países, nas universidades de Paris VIII, em Saint Denis, e Federal da Bahia - UFBA, em Salvador. Após sete anos de interrupção da realização regular de colóquios internacionais, em 2005, teve início nova série de colóquios internacionais, agora com a periodicidade bienal e a ampliação da participação de outros grupos de pesquisa e universidades, sobretudo franceses e brasileiros.

Assim, após o IV Colóquio, cuja instituição anfitriã foi a Universidade de Paris VIII, em 2005, e o V, que teve na UFBA a equipe receptiva, em 2007, já com a importante presença de instituições universitárias francesas e latino-americanas, vinculadas ao projeto ARCUS, com a liderança da Universidade de Paris X, Nanterre, prepara-se o VI Colóquio, tendo como universidade anfitriã a Federal de Minas Gerais – UFMG. Interligadas por termos de cooperação formal e por formas de ações de intercâmbio, UFBA, UFMG, Paris VIII e Paris X revelam a emergente consolidação de uma rede internacional de pesquisa que tem na etnocenologia um de seus pilares epistemológicos e metodológicos. A realização do VI Colóquio Internacional de Etnocenologia, no contexto do Ano da França no Brasil, em 2009, dará continuidade à nova série de eventos acadêmicos internacionais bienais, iniciada no contexto do Ano do Brasil na França, em 2005, quando se realizou o IV Colóquio.

Em 2007, a ABRACE criou seu mais novo Grupo de Trabalho, dedicado à etnocenologia, durante a realização de sua IV Reunião Científica, com a ementa que se segue.

 

Ementa

Etnociência das artes do espetáculo e dos comportamentos e práticas espetaculares humanos organizados, a etnocenologia busca articular, na interseção dos vastos campos do conhecimento das ciências e das artes, as teorias e as práticas dos espetáculos e a criação e a crítica. Do ponto de vista temático, essa perspectiva transdisplinar se refere, constantemente, à tradição e à contemporaneidade e, também, aos universos da experimentação, do amadorismo e do profissionalismo.

            Seu interesse pela diversidade e pela pluralidade cultural sugere um diálogo freqüente da etnocenologia com os estudos culturais e da performance, a antropologia teatral e as ciências do teatro, bem como com os estudos dedicados à dança, ao circo, à ópera e à performance (enquanto forma artística assumidamente espetacular). Para além do âmbito estrito da história e da contemporaneidade dos espetáculos, esse diálogo se amplia para os campos das ciências do homem que recorrem às práticas espetaculares e teatrais para investigar a convivência humana e a criação de sentidos das diversas formas de comunicação e linguagem.

            Ancorada no desenvolvimento de projetos de pesquisa construídos sobre objetos e corpus bem definidos e, também, sobre a otimização das apetências e competências do pesquisador, a etnocenologia valoriza sempre a informação sobre o trajeto artístico e universitário que o levou cada pesquisador, enquanto sujeito, à eleição de seu objeto de pesquisa. Sua perspectiva transdisciplinar, científica e teórico-metodológica, inscreve a etnocenologia na grande área de conhecimento das artes, mais precisamente das artes do espetáculo.